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CLUBE DA POESIA


MESTRES DA POESIA MUNDIAL


A POESIA DE VICENTE DE CARVALHO


Poesia II (do "Velho tema")

 

Eu cantarei de amor tão fortemente, 

com tal celeuma e com tamanhos brados,

 que afinal teus ouvidos, dominados, 

hão de à força escutar quanto eu sustente.

 

Quero que meu amor se te apresente

- não andrajoso e mendigando agrados, 

mas tal como é: - risonho e sem cuidados,

muito de altivo, um tanto de insolente.

 

Nem ele mais a desejar se atreve

 do que merece: eu te amo, e o meu desejo

 apenas cobra um bem que se me deve.

 

Clamo, e não gemo; avanço, e não rastejo;

e vou, de olhos enxutos e alma leve,

à galharda conquista do teu beijo.

Poesia III (do "Velho tema")

 

Belas, airosas, pálidas, altivas, 

como tu mesma, outras mulheres vejo:

são rainhas, e segue-as num cortejo

 extensa multidão de almas cativas.

 

Têm a alvura do mármore; lascivas 

formas; os lábios feitos para o beijo;

 e indiferente e desdenhoso as vejo

 belas, airosas, pálidas, altivas...

 

Porque? Porque lhes falta a todas elas,

 mesmo às que são mais puras e mais belas,

 um detalhe sutil, um quase nada:

 

falta-lhes a paixão que em mim te exalta,

e entre os encantos de que brilham, falta

o vago encanto da mulher amada.

Poesia IV  (do "Velho tema")

 

Eu não espero o bem que mais desejo:

sou condenado, e disso convencido;

 vossas palavras, com que sou punido,

 são penas e verdades de sobejo.

 

  O que dizeis é mal muito sabido,

pois nem se esconde, nem procura ensejo,

e anda à vista naquilo que mais vejo:

em vosso olhar, severo ou distraído.

 

Tudo quanto afirmais eu mesmo alego:

ao meu amor desamparado e triste

 toda a esperança de alcançar-vos nego.

 

Digo-lhe quanto sei, mas ele insiste;

 conto-lhe o mal que vejo, e ele, que é cego,

põe-se a sonhar o bem que não existe.

Poesia V  (do "Velho tema")

 

-  "Alma serena e casta; que eu persigo

com o meu sonho de amor e de pecado

abençoado seja, abençoado

o rigor que te salva e é meu castigo.

 

Assim desvies sempre do meu lado 

os teus olhos; nem ouças o que eu digo;

 e assim possa morrer, morrer comigo, 

este amor criminoso e condenado.

 

Sê sempre pura! Eu com denodo enjeito

 uma ventura obtida com teu dano, 

bem meu, que de teus males fosse feito".

 

Assim penso, assim quero, assim me engano...

 Como se não sentisse que em meu peito 

pulsa o covarde coração humano!...

" A minha irmã "

 

Entregaram-te enfim à paz do cemitério,

deixaram-te na cova o corpo delicado,

e a funda escuridão enorme do Mistério

para sempre engoliu-te, ó lírio desfolhado!

 

Agora, na umidade aspérrima do solo,

terás para abrigar-te o derradeiro sono

-  Em vez do olhar materno e do materno colo -

A tristeza glacial de um lúgubre abandono.

 

E lá -  ir-te-ão roçar a alvíssima epiderme,

e, roendo-te a carne, apodrecer-te os ossos,

o contato nojento e túrbido do verme,

e as negras podridões dos charcos e dos poços.

 

  E enquanto adormecida à sombra desolada

dos ciprestes, tua carne apodrentar-se, as feras

hão de sorver a luz ao cálix da alvorada

e hão aspirar o aroma às frescas primaveras.

 

E enquanto na funérea escuridão dormires,

a terra há de sorrir nas expansões da flora,

hão de enfaixar o céu as cores do arco-íris,

e o sol há de fulgir nas púrpuras da aurora.

 

E tu... não hás de mais colher pelos caminhos

a rubra flor aberta à madrugada; e à ave

não mais imitarão a música dos ninhos

as doces vibrações de tua voz suave!

 

Amanhã tu serás o lodo de um monturo,

uma caveira a rir um riso de idiota;

e surgirás no limo, e hás de ser verme impuro,

e virás na erva ruim que a sepultura brota...

 

Embora! Terás sempre a alvura do alabastro

à vista espiritual de uma ilusão materna...

Ao olhar de tua mãe tu serás sempre um astro

esculpido no azul de uma saudade eterna!

Nesta última poesia, feita por Vicente de Carvalho ainda novo, jovem, nota-se claramente a influência do estilo deletério de Baudelaire, no seu versejar, o qual lhe servia de inspiração e modelo. Nos últimos versos, ainda aparece ainda um leve traço de romantismo, porém, não limpa o estilo chocante de todo o poema.

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