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Soneto VI da Segunda dor "
Mãos
que os lírios invejam, mãos eleitas
para
aliviar de Cristo os sofrimentos,
cujas
veias azuis parecem feitas
da
mesma essência astral dos óleos bentos;
mãos
de sonho e de crença, mãos afeitas
a
guiar do moribundo os passos lentos,
e,
em séculos de fé, rosas desfeitas
em
hinos sobre as torres dos conventos;
mãos a bordar o santo Escapulário,
que
revelastes, para quem padece,
o
inefável consolo do Rosário;
mâos
ungidas no sangue da Coroa,
deixai
tombar sobre a minha Alma em prece
a
bênção que redime e que perdoa! |
"Estão
mortas as mãos daquela dona"... (Soneto XXXII)
Estão
mortas as mãos daquela Dona,
brancas
e quietas como o luar que vela
as
noites romanescas de Verona,
e
as barbacãs e torres de Castela...
No
último gesto de quem se abandona
à
morte esquiva, que apavora e gela,
as
suas mãos de Santa e de Madona,
inda
postas em cruz, pedem por ela.
Uma
esquecida sombra de agonias
oscula
o jaspe virginal das unhas,
e
ao longo oscila das falanges frias...
E
os dedos finos.., ai! Senhora, ao vê-los,
recordo-me
da graça com que punhas
um
cravo, um lírio, um goivo entre os cabelos! |
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"Se
eu visse descer da escadaria". . . (Soneto
XXXV)
Se
eu a visse descer da escadaria
de
um altar que entre nuvens se atufasse,
certo
o menor espanto não teria...
De
onde quisereis vós que ela baixasse?
Pois
dizei-me, vós todos, onde havia
de
cintilar a luz daquela face?
A
sua palidez tão casta e fria
era
um lis, que na terra infiel não nasce.
Zelos
de amor, no entanto, eu tinha, ao vê-la
mirada
por vós todos, como estrela
vesperal
que ninguém contempla a sos. .
Minha pobre alma, que ilusão a tua!
Há
damas tristes que são como a lua:
a
luz que têm é para todos nós... |
"Ao
Poente"
Ficávamos
sonhando horas inteiras,
com
os olhos cheios de visões piedosas:
éramos
duas virginais palmeiras,
abrindo
ao céu as palmas silenciosas.
As
nossas almas, brancas, forasteiras,
no
éter sublime alavam-se radiosas.
Ao
redor de nós dois, quantas roseiras!
O
áureo poente coroava-nos de rosas.
Era
um harpejo de harpa todo o espaço:
mirava-a
longamente, traço a traço,
no
seu fulgor de arcanjo proibido.
Surgia
a Lua, além, toda de cera...
Ai
como suave então me parecera
a
voz do amor que eu nunca tinha ouvido! |
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Sonetos L "
A
desventura na minh 'alma é tanta
que
lhe não basta, flor, para acalmá-la
o
teu sorriso angelical de santa,
o
hinário celestial da tua fala.
O
sol, como um amado, se quebanta;
a
tarde morre envolta em véus de opala...
a
harpa do dia, adonde um anjo canta,
a
última corda espiritual estala.
Penso
nos dias idos, nesse doce,
leve
oscilar das plumas da esperança,
como
se moço e não bem velho eu fosse.
E
alguém, que és tu, me diz: - Pobre criança,
o
teu sonho era luz: divinizou-se...
toma
as muletas de ancião. Descansa! |
"
Tema secular"
As
velhas ilusões são como um bando
de
cisnes a vogar em manso lago:
Seguem
suaves, silentes; vão sonhando,
ao
condão misterioso de um rei mago...
A
tarde é um lírio roxo: o ocaso é brando,
e
morre à beira-céu, com o um afago;
a
lua, errante arcanjo miserando,
ergue-se
então com o seu palor pressago...
Há
sombras pelos bosques enluarados,
e
nos torreóes do céu vultos humanos
envolvem-se
em grinaldas de noivados...
Vêm
dias, e vêm meses, e vêm anos:
E
os cisnes, em casais de bem casados,
seguem
singrando o lago dos enganos... |