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A POESIA DE ALPHONSUS DE GUIMARÃES

" Soneto VI da Segunda dor "

 

Mãos que os lírios invejam, mãos eleitas

 para aliviar de Cristo os sofrimentos,

 cujas veias azuis parecem feitas

 da mesma essência astral dos óleos bentos;

 

mãos de sonho e de crença, mãos afeitas

 a guiar do moribundo os passos lentos,

 e, em séculos de fé, rosas desfeitas

em hinos sobre as torres dos conventos;

 

  mãos a bordar o santo Escapulário,

 que revelastes, para quem padece,

 o inefável consolo do Rosário;

 

mâos ungidas no sangue da Coroa, 

deixai tombar sobre a minha Alma em prece

 a bênção que redime e que perdoa!

"Estão mortas as mãos daquela dona"... (Soneto XXXII)

 

Estão mortas as mãos daquela Dona,

 brancas e quietas como o luar que vela

 as noites romanescas de Verona, 

e as barbacãs e torres de Castela...

 

No último gesto de quem se abandona 

à morte esquiva, que apavora e gela,

 as suas mãos de Santa e de Madona,

 inda postas em cruz, pedem por ela.

 

Uma esquecida sombra de agonias

oscula o jaspe virginal das unhas,

e ao longo oscila das falanges frias...

 

E os dedos finos.., ai! Senhora, ao vê-los,

recordo-me da graça com que punhas

um cravo, um lírio, um goivo entre os cabelos!

"Se eu visse descer da escadaria". . . (Soneto XXXV)

 

Se eu a visse descer da escadaria

 de um altar que entre nuvens se atufasse,

 certo o menor espanto não teria...

 De onde quisereis vós que ela baixasse?

 

Pois dizei-me, vós todos, onde havia

de cintilar a luz daquela face?

 A sua palidez tão casta e fria

era um lis, que na terra infiel não nasce.

 

Zelos de amor, no entanto, eu tinha, ao vê-la

mirada por vós todos, como estrela

vesperal que ninguém contempla a sos. .

 

  Minha pobre alma, que ilusão a tua!

Há damas tristes que são como a lua:

a luz que têm é para todos nós...

"Ao Poente"

 

Ficávamos sonhando horas inteiras,

 com os olhos cheios de visões piedosas:

éramos duas virginais palmeiras,

abrindo ao céu as palmas silenciosas.

 

As nossas almas, brancas, forasteiras,

 no éter sublime alavam-se radiosas.

Ao redor de nós dois, quantas roseiras!

O áureo poente coroava-nos de rosas.

 

Era um harpejo de harpa todo o espaço:

mirava-a longamente, traço a traço,

 no seu fulgor de arcanjo proibido.

 

Surgia a Lua, além, toda de cera...

Ai como suave então me parecera

a voz do amor que eu nunca tinha ouvido!

" Sonetos L "

 

A desventura na minh 'alma é tanta

que lhe não basta, flor, para acalmá-la

o teu sorriso angelical de santa,

o hinário celestial da tua fala.

 

O sol, como um amado, se quebanta;

a tarde morre envolta em véus de opala...

a harpa do dia, adonde  um anjo canta,

a última corda espiritual estala.

 

Penso nos dias idos, nesse doce,

leve oscilar das plumas da esperança,

 como se moço e não bem velho eu fosse.

 

E alguém, que és tu, me diz: - Pobre criança,

o  teu sonho era luz: divinizou-se...

toma as muletas de ancião. Descansa!

" Tema secular"

 

As velhas ilusões são como um bando

de cisnes a vogar em manso lago:

Seguem suaves, silentes; vão sonhando,

ao condão misterioso de um rei mago...

 

A tarde é um lírio roxo: o ocaso é brando,

e morre à beira-céu, com o um afago;

a lua, errante arcanjo miserando,

ergue-se então com o seu palor pressago...

 

Há sombras pelos bosques enluarados,

e nos torreóes do céu vultos humanos

 envolvem-se em grinaldas de noivados...

 

Vêm dias, e vêm meses, e vêm anos:

E os cisnes, em casais de bem casados,

seguem singrando o lago dos enganos...

 

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