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Por vezes duvidava que pudesse algum dia encontrar o meio
apropriado
para comunicar à toda a humanidade as imagens
que lhe ocorriam naquele intervalo
que ficava entre o
sono e os momentos de vigília.
Talvez
não houvesse ninguém que tivesse passado pelas suas
estranhas experiências mentais.
Talvez, mesmo, não
houvessem palavras humanas capazes de expressar tais
experiências.
"Elas não são idéias nascidas em
meu cérebro.
Não são sonhos. Erguem-se da alma, da sua
mais profunda tranqüilidade.
Não
surgem nos estados de vigília; não me ocorrem durante o sono.
Tomam forma naqueles pontos precisos em que o mundo da vigília
se mistura com o mundo do sono,
no segundo exato em que o meu
espírito flutua entre os sonhos e a consciência
e quem poderia dizer se o ser humano está, naquele momento
absolutamente psíquico,
acordado ou dormindo?" fosse
momento de esquisita delicadeza dificilmente pode ser
experimentado
pelos cinco sentidos normais.
Ele jaz na zona de
uma infinidade de supersentidos inteiramente alheios ao estado
físico.
"Acaso não é esse momento a própria origem da
minha vida, a própria essência do meu gênio?
E, sendo assim,
é essa experiência comum a todos os homens, ou se limita
apenas ao meu ser individual?"
Perdido
nessa fronteira fantástica, o poeta procurou encontrar uma
resposta para as suas perguntas.
Precisava transportar esse seu
próprio momento fluídico para o depósito gelado da memória
e examinar seus sonhos com olhos práticos.
Devia
ter fé no poder das palavras.
Devia demonstrar o fato de que
tanto as fantasias como as idéias podem sobreviver
dentro da
província da linguagem precisa. De outro modo, estaria
perdido,
como um fantasma assombrando
a morada da vida,
a procurar Inutilmente um lugar em meio à
realidade das outras criaturas.
"Preciso
fazer as minhas fantasias dignas de crédito".
Conduziria seus leitores às mais altas regiões da imaginação
impossível,
levando-os sutil e imperceptivelmente a aceitar o
fantasma como substância, o mito como verdade,
mal percebendo
o ponto em que transpuserem os limites do mundo material
para a
terra dos aspectos sombrios e das paisagens crepusculares cujos
segredos só um homem conhece.
Procurou,
assim, apreender os momentos entre o sono e a vigília e
traduzi-los em visões
pseudo-realistas que pareciam mais reais
do que a realidade.
Publicou um livro dessas histórias - Ligéia,
a Queda da Casa de Usher, William Wilson...
O público
leu essas histórias e as compreendeu. Agora, por fim, podia
gozar,
de todas as coisas boas a que tem direito um homem de gênio
- amor, fama, o domínio do intelecto,
a consciência do poder,
o emocionante sentido da beleza, o ar livre dos céus.
As suas
dificuldades, pensava ele, haviam, afinal, acabado!
Mas
suas dificuldades mal haviam começado.
Foi difamado pelos
confrades - por críticos invejosos do seu sucesso como
escritor,
por escritores exasperados pela sua honestidade como
crítico.
Além de todas essas dificuldades, veio a
desencorajante sucessão de cartas dos editores de jornais,
dispensando seus serviços.
Teriam
muito prazer em tê-lo novamente de volta, afirmavam
condescendentemente, se ele deixasse de beber.
Eles bem
poderiam ter dito: se deixasse de escrever!
Depois,
aconteceu-lhe desgraça muito pior. Virgínia, a esposa-criança
que ele amava
"como jamais homem algum amou antes",
teve um vaso sanguíneo rompido, quando cantava.
Sua vida
estava por um triz. "Despedi-me dela para sempre e
suportei as agonias de sua morte.
Ela melhorou parcialmente e
eu tive ainda esperanças. No fim do ano o vaso rompeu-se de
novo".
Depois, outra vez - e mais outra~ "Tornei-me
insano, com intervalos de terrível sanidade.
Durante esses
acessos de absoluta inconsciência, eu bebia
-
só Deus sabe quão freqüentemente ou quanto".
Encontrou
depois uma cura temporária para si próprio - encontrou-a no
veredicto definitivo dos médicos,
de que a morte em breve a
levaria.
Essa
tragédia certa ele a pôde suportar
como homem.
A
horrível alternativa entre a esperança e o desespero é que
ele não poderia ter suportado por mais tempo.
Decorreram,
porém, seis anos antes da sua morte, morte lenta e
mortificante para ambos.
Ele rondava o leito da enferma com
terna ansiedade e, à menor tosse, um tremor se apossava dele,
como uma convulsão.
Havia
noite em que ninguém ousava falar com ele.
Ao chegar a época
de calor, saía com ela ao crepúsculo, e seus olhos
perquiridores
buscavam avidamente o rosto pálido da esposa, a
fim de descobrir a mais leve mudança de expressão.
"Caro
Griswold" - o homem altivo foi finalmente obrigado a
escrever a um amigo,
- "você pode me mandar cinco dólares?
Estou doente e Virgínia quase se foi".
Perdera,
mais uma vez, o seu emprego de redator, desta vez no Graham's
Magazine.
Acompanhado da esposa inválida, deixou Filadélfia
para experimentar a sorte em Nova York.
Tinha dez dólares no
bolso.
Após
a chegada à Cidade da Nova Esperança, escreveu uma carta à mãe
de Virgínia:
"Minha
querida Muddy. Chegamos a salvo ao ancoradouro de Walnut Street...
Levei Sis para o Depôt Hotel.
Ontem
à noite, tivemos como jantar o mais gostoso chá que já se
bebeu, forte e quente,
pão de trigo e pão de centeio, queijo,
bolos (elegantes), um grande prato (dois pratos)
de fino
presunto e dois de carne de vitela fria, amontoada como uma
montanha de grandes fatias
- três pratos de bolos, e tudo na
maior profusão... Sis está encantada...
Ela não tem tossido
quase e não tem tido suores noturnos. Está neste momento
costurando minhas calças,
que rasguei num prego... Sobrou-nos
quatro dólares e meio...
Sinto-me de excelente humor e não
bebi uma gota de álcool - de modo que espero sair logo das
dificuldades".
Isso
não era senão um tênue raio de felicidade na negra vigília
do seu desespero.
Logo
veio o inverno, e com ele as tosses, as febres e os
suores.
Virgínia
jazia numa cama que não tinha colchão nem qualquer outra
coisa, exceto palha, lençóis e colcha.
Ficava
enrolada no casaco do marido e segurava ao peito uma grande
pele de gato, para aquecer-se.
O marido esfregava as mãos.
Aquele contato de
algum modo ajudava a circulação.
Sua mãe esfregava os pés,
para evitar que se congelassem.
Virgínia
passou à eternidade num domingo, enquanto os sinos das igrejas
tocavam e os fiéis faziam suas orações.
Acompanhou
ao túmulo seu pobre corpinho envolto no negro capote militar
que a aquecera nos últimos momentos.
E
enquanto eles a baixavam para descansar, lembrou-se das
palavras que escrevera em seu desespero:
"As flores em
forma de estrela encolhem-se no tronco das árvores e não
aparecem mais...
A Vida desertou nossos caminhos, pois o esguio
flamingo não mais ostenta diante de nós
a sua plumagem
escarlate, mas voou tristemente do vale para as colinas...
E o
peixe de ouro e prata desceu a correnteza através da garganta
até perder-se de nossas vistas,
e nunca mais enfeitou o doce
rio... E a melodia acalentadora... morreu, pouco a pouco, ao
longe,
em murmúrios cada vez mais baixos. "
Afinal,
Poe tornou~se famoso como escritor bizarro. Famoso, mas não próspero.
Todo o mundo literário se erguera para reconhecer-lhe o
talento,
ao ganhar o primeiro prêmio com O Besouro de Ouro, um
conto de cifras e segredos.
Mas
o prêmio rendeu-lhe apenas cem dólares e uma infinidade de
aborrecimentos.
A
história fizera surgir a mania dos "códigos".
Grande número de admiradores mandava-lhe criptogramas e
desafiava-o a que os resolvesse.
"Perdi em tempo, que para
mim é dinheiro, mais de mil dólares, decifrando mensagens
secretas"
- e isso com o único objetivo de demonstrar a
uma grande assistência as suas qualidades analíticas.
E
a sua assistência se tornou ainda maior, quando surpreendeu o
mundo com O Corvo.
Não
obstante, apesar de toda a sua fama, continuou tão pobre como
antes:
vendera O Corvo por dez dólares.
E
assim passou ele pelo mundo, triste, solitária, faminta
celebridade trajada de preto,
encontrando as pessoas com um
sorriso cínico nos lábios,
a "Sonhar sonhos que nenhum
mortal jamais sonhara antes".
A
despeito da tristeza e da fome, continuou criando suas
estranhas visões e - admitamo-lo -
plagiando livremente quando
lhe diminuía o fogo da imaginação.
Quando outros escritores
lançavam mão dessa classe não permitida de empréstimo,
ele
chamava isso abertamente de roubo. Mas quando ele próprio o
fazia... bem, ele o fazia, e isso era tudo!
Vivia num mundo
cujas leis, cujos costumes e cujas necessidades ficavam muito
além
da compreensão da média da inteligência humana.
Seus
criptogramas, suas mistificações, suas descrições
pseudo-científicas de viagens em balão
e as narrações de
conversas com mortos e cadáveres ressuscitados tudo isso era
parte e parcela.
da fantasmagoria em
que o seu espírito habitualmente vivia.
Acaso
a vida inteira não era uma mistificação, uma visão fantástica
plagiada por algum
Poeta Divino do pesadelo épico de um espírito
diabólico? Por que, então, não deveria ele,
poeta humano,
plagiar as visões fantásticas de outros cérebros humanos?
Ele,
portanto, não sentia arrependimento algum quando se afirmava
que a sua narrativa marítima
de Arthur Gordon Pym fora em
grande parte copiada de uma descrição das Viagens, de Morell,
e que o seu espantoso ensaio sôbre concologia (estudo das
conchas)
- assunto sobre o qual não possuía o menor
conhecimento, era uma reprodução quase completa
de um livro
escrito pelo Capitão Thomas Brown.
Sempre
"poseur", sempre pretendendo revelar um conhecimento
que não possuía,
sempre colorindo a sua impostura com a
verossimilhança, vivia num mundo de fantasias subjetivas
e
leis por ele próprio fabricadas.
Referia-se
constantemente, em seus contos e artigos, a livros estrangeiros
que,
depois de investigações, se verificava jamais haver
existido.
Como
outros escritores que sofrem o obstáculo de uma educação
insuficiente,
gostava de exibir a sua pseudo-erudicão por meio
de "citações"
de passagens tiradas de idiomas sobre
os quais nada conhecia.
Mas
não olhava as suas citações fictícias como imposturas.
Era
um artista. Não desejava fatos; desejava apenas efeitos.
Era
um pintor do grotesco e do arabesco. Não se interessava tanto
pela verdade como pela beleza.
"O sentido da beleza é um
instinto imortal e profundo no espírito do homem
Evocar
a beleza através da música das palavras - esse, e só esse,
era o objetivo da sua arte.
Ele chamava de música "o mais
arrebatador dos caprichos poéticos".
Para
criar esses caprichos, essas figuras musicais do grotesco e do
arabesco,
empregava todo o repertório literário de truques mágicos
- "a novidade, as citações, a repetição,
frases
inesperadas, singularidades... sentenças e sentimentos de sons
suaves" que ficavam
"simplesmente além do alcance da
análise".
Afirmava
que todos aqueles que persistem em "misturar o azeite da
poesia e da verdade,
" são "irremediavelmente
loucos".
Nenhuma
obra de arte, afirmava ele, deveria jamais preconizar uma moral
ou encerrar uma verdade.
O
que procurava criar era, pois, uma realidade artística, antes
que científica, verossimilhança,
antes que verdade mera
semelhança de verdade, antes que verdadeira verdade.
E
aí estava, explicava ele, a justificação dos seus artifícios
e
mistificações, das suas "descobertas"
pseudo-científicas
e
das suas citações fictícias.
Era,
tanto na poesia como na
prosa,
um escritor de ficção.
Mas
era também um criador,
e
assim, a sua ficção parecia, às vezes, mais verdadeira,
mesmo, que a verdade.
Depois
da morte da esposa, continuou a viver na sua casa de aluguel de
Fordham.
Sofreu
séria enfermidade, durante esses "últimos anos solitários".
Depois,
à medida que lentamente convalescia, em meio dos seus pequenos
pássaros tropicais,
das suas dálias e dos seus heliotrópios,
seu espírito se envolveu nas nuvens do misticismo.
Começou a
discorrer sobre o universo e a planejar o panorama de uma
filosofia comparada,
diante da qual "a descoberta da
gravitação de Newton seria um mero acidente".
Escreveu
o livro e exclamou: Eureka - Fiz a descoberta !
Encarou
esse livro como o maior dos seus trabalhos.
Não
era bastante ter-se colocado entre os mestres da poesia e da
ficção; tinha-se tornado agora,
acreditava ele, o principal
filósofo do século.
Mas
os críticos pensavam de outra maneira.
Encaravam o livro como
a triste manifestação de uma pomposa obscuridade,
a patética
tentativa que trazia em si o germe mortal, em busca de uma alma
imortal.
Poe,
todavia, ainda não estava preparado para se confessar um
fracassado.
Agarrava-se ainda à esperança de lançar a sua própria
revista e de "reabilitar-me, de um modo geral,
no mundo
literário". Realizou uma viagem de conferências pela
Nova Inglaterra.
"Aqueles olhos claros e tristes",
escreveu um dos comentaristas das suas conferências,
pareciam olhar-nos a todos de um plano superior...
Sorria, mas raramente ria ou dizia qualquer coisa que alegrasse
os outros".
Numa
conferência sobre poesia, realizada em Providence, conheceu
Mrs. Whitman,
urna poetisa por quem se sentiu profundamente
atraído. Ficaram noivos,
mas a conduta de Poe a afastou dele.
Freqüentemente era encontrado caído pelas ruas
- vitima do láudano
ou do álcool.
Era
uma coisa lamentável quando embriagado. Cambaleando pelas
sarjetas, os olhos turvos,
as roupas transformadas em farrapos
e sujas de lama,
perdia-se em "sublimes rapsódias sobre a
evolução do universo",
a falar como de uma plataforma
imaginária
para imensas assistências de sonho,
compostas de "multidões
de visitantes atentos".
Finalmente,
quando, devido a bebida, caiu no descrédito público, Mrs.
Whitman desfez o noivado.
Ele,
porém, ainda alimentava o sonho do magazine que iria lançar.
Em
1849 deixou Fordham, rumando para Richmond, para elaborar os
planos da projeta publicação.
Também agora sua esperança
ruiu por terra, não devido a qualquer oposição externa,
mas
por falta de vontade própria.
Seu
espírito começara a atormentar-se com a suspeita de uma
tremenda conspiração contra a sua vida.
Com
a navalha, raspava o bigode, disfarçando-se, assim, aos olhos
dos seus perseguidores.
Os amigos desconfiavam da sua sanidade,
e achavam que alguém o devia vigiar.
Sentiram
grande alívio quando ele de novo passou a cortejar uma antiga
namorada de infância,
então viúva rica.
Novamente,
outro noivado foi anunciado.
Poe liquidou seus negócios e
partiu rumo ao Sul, para casar.
Mas
não atingiu jamais o seu destino.
Encontraram-no em Baltimore
- numa das seções eleitorais do quarto distrito - fora de si,
sem as malas de viagem, e sem o dinheiro que levava, que
desaparecera.
Acreditou-se que, sob a influência do álcool,
tivesse caído nas mãos de um bando de cabos eleitorais
velhacos,
que o teriam narcotizado e conservado prisioneiro até
o dia das eleições,
fazendo-o depois, ainda entorpecido, ir
de um distrito a outro, para votar sob vários nomes.
Levaram-no
para o hospital.
O rosto estava banhado de suor.
Falou,
em delírio, durante horas. Depois seu espírito adquiriu certa
lucidez.
Pouco
antes de morrer, balbuciou algumas frases coerentes.
O
God! ... Is all we see or seem
But
a dream within a dream?
(
Ó Deus!... Tudo o que vemos ou julgamos ver,
Não
passa de um sonho dentro de um sonho? )
E
assim termina a história de um homem de grandes idéias, um
grande literato
um grande Poeta que jamais morrerá !!!
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