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CONTINUAÇÃO DA BIOGRAFIA DE EDGAR ALLAN POE

 

Não podia continuar a escrever para sempre comentários sobre livros em magazines de outrem, compelido a manifestar opiniões sobre emprego de capital, obrigado a dizer "amém", juntamente com o público, aos "microscópicos esforços literários de uma centenas de animálculos que se chamam a eles próprios de escritores".  

 

Algum dia publicaria uma revista sua e trabalharia somente para si.

 E então daria plena liberdade às suas fantasias.

Esse era o motivo da sua esperança e do seu desespero. 

Por vezes duvidava que pudesse algum dia encontrar o meio apropriado 

para comunicar à toda a humanidade as imagens que lhe ocorriam naquele intervalo 

que ficava entre o sono e os momentos de vigília.

 

Talvez não houvesse ninguém que tivesse passado pelas suas estranhas experiências mentais.

 

Talvez, mesmo, não houvessem palavras humanas capazes de expressar tais experiências.

 "Elas não são idéias nascidas em meu cérebro.

 

 Não são sonhos. Erguem-se da alma, da sua mais profunda tranqüilidade.

 

Não surgem nos estados de vigília; não me ocorrem durante o sono. 

 

Tomam forma naqueles pontos precisos em que o mundo da vigília se mistura com o mundo do sono,

 no segundo exato em que o meu espírito flutua entre os sonhos e a consciência  

e quem poderia dizer se o ser humano está, naquele momento absolutamente psíquico, 

acordado ou dormindo?" fosse momento de esquisita delicadeza dificilmente pode ser experimentado 

pelos cinco sentidos normais.

 Ele jaz na zona de uma infinidade de supersentidos inteiramente alheios ao estado físico. 

"Acaso não é esse momento a própria origem da minha vida, a própria essência do meu gênio? 

 

E, sendo assim, é essa experiência comum a todos os homens, ou se limita apenas ao meu ser individual?"

 

Perdido nessa fronteira fantástica, o poeta procurou encontrar uma resposta para as suas perguntas.

 

 Precisava transportar esse seu próprio momento fluídico para o depósito gelado da memória 

e examinar seus sonhos com olhos práticos. 

 

Devia ter fé no poder das palavras.

 

 Devia demonstrar o fato de que tanto as fantasias como as idéias podem sobreviver

 dentro da província da linguagem precisa. De outro modo, estaria perdido, 

como um fantasma assombrando a morada da vida,

 a procurar Inutilmente um lugar em meio à realidade das outras criaturas.

 

"Preciso fazer as minhas fantasias dignas de crédito".  

 

Conduziria seus leitores às mais altas regiões da imaginação impossível, 

levando-os sutil e imperceptivelmente a aceitar o fantasma como substância, o mito como verdade, 

mal percebendo o ponto em que transpuserem os limites do mundo material

 para a terra dos aspectos sombrios e das paisagens crepusculares cujos segredos só um homem conhece.

 

Procurou, assim, apreender os momentos entre o sono e a vigília e traduzi-los em visões 

pseudo-realistas que pareciam mais reais do que a realidade.

 

Publicou um livro dessas histórias - Ligéia, a Queda da Casa de Usher, William Wilson... 

 

O público leu essas histórias e as compreendeu. Agora, por fim, podia gozar,

 de todas as coisas boas a que tem direito um homem de gênio - amor, fama, o domínio do intelecto,

 a consciência do poder, o emocionante sentido da beleza, o ar livre dos céus.

 

 As suas dificuldades, pensava ele, haviam, afinal, acabado!

Mas suas dificuldades mal haviam começado.

 Foi difamado pelos confrades - por críticos invejosos do seu sucesso como escritor, 

por escritores exasperados pela sua honestidade como crítico. 

 

Além de todas essas dificuldades, veio a desencorajante sucessão de cartas dos editores de jornais,

 dispensando seus serviços. 

Teriam muito prazer em tê-lo novamente de volta, afirmavam condescendentemente, se ele deixasse de beber.

 

 Eles bem poderiam ter dito: se deixasse de escrever!

 

Depois, aconteceu-lhe desgraça muito pior. Virgínia, a esposa-criança que ele amava

 "como jamais homem algum amou antes", teve um vaso sanguíneo rompido, quando cantava. 

Sua vida estava por um triz. "Despedi-me dela para sempre e suportei as agonias de sua morte. 

Ela melhorou parcialmente e eu tive ainda esperanças. No fim do ano o vaso rompeu-se de novo".

 Depois, outra vez - e mais outra~ "Tornei-me insano, com intervalos de terrível sanidade. 

Durante esses acessos de absoluta inconsciência, eu bebia - só Deus sabe quão freqüentemente ou quanto". 

Encontrou depois uma cura temporária para si próprio - encontrou-a no veredicto definitivo dos médicos,

 de que a morte em breve a levaria.

 

Essa tragédia certa ele a pôde suportar como homem. 

 

A horrível alternativa entre a esperança e o desespero é que ele não poderia ter suportado por mais tempo.

 

Decorreram, porém, seis anos antes da sua morte, morte lenta e mortificante para ambos.

 Ele rondava o leito da enferma com terna ansiedade e, à menor tosse, um tremor se apossava dele,

 como uma convulsão.

 

Havia noite em que ninguém ousava falar com ele.

 

 Ao chegar a época de calor, saía com ela ao crepúsculo, e seus olhos perquiridores 

buscavam avidamente o rosto pálido da esposa, a fim de descobrir a mais leve mudança de expressão.

 

"Caro Griswold" - o homem altivo foi finalmente obrigado a escrever a um amigo,

 - "você pode me mandar cinco dólares? Estou doente e Virgínia quase se foi".

 

Perdera, mais uma vez, o seu emprego de redator, desta vez no Graham's Magazine.

 

Acompanhado da esposa inválida, deixou Filadélfia para experimentar a sorte em Nova York.

 

Tinha dez dólares no bolso.

 

Após a chegada à Cidade da Nova Esperança, escreveu uma carta à mãe de Virgínia:

"Minha querida Muddy. Chegamos a salvo ao ancoradouro de Walnut Street...

 Levei Sis para o Depôt Hotel.

 

Ontem à noite, tivemos como jantar o mais gostoso chá que já se bebeu, forte e quente,

 pão de trigo e pão de centeio, queijo, bolos (elegantes), um grande prato (dois pratos)

 de fino presunto e dois de carne de vitela fria, amontoada como uma montanha de grandes fatias

 - três pratos de bolos, e tudo na maior profusão... Sis está encantada... 

Ela não tem tossido quase e não tem tido suores noturnos. Está neste momento costurando minhas calças,

que rasguei num prego... Sobrou-nos quatro dólares e meio... 

Sinto-me de excelente humor e não bebi uma gota de álcool - de modo que espero sair logo das dificuldades".

 

Isso não era senão um tênue raio de felicidade na negra vigília do seu desespero. 

 

Logo veio o inverno,  e com ele as tosses, as febres e os suores.

 Virgínia jazia numa cama que não tinha colchão nem qualquer outra coisa, exceto palha, lençóis e colcha. 

 

Ficava enrolada no casaco do marido e segurava ao peito uma grande pele de gato, para aquecer-se. 

O marido esfregava as mãos. Aquele contato de algum modo ajudava a circulação.

 

 Sua mãe esfregava os pés, para evitar que se congelassem.

 

Virgínia passou à eternidade num domingo, enquanto os sinos das igrejas tocavam e os fiéis faziam suas orações. 

 

Acompanhou ao túmulo seu pobre corpinho envolto no negro capote militar que a aquecera nos últimos momentos.

 

E enquanto eles a baixavam para descansar, lembrou-se das palavras que escrevera em seu desespero: 

"As flores em forma de estrela encolhem-se no tronco das árvores e não aparecem mais...

 A Vida desertou nossos caminhos, pois o esguio flamingo não mais ostenta diante de nós

 a sua plumagem escarlate, mas voou tristemente do vale para as colinas...

E o peixe de ouro e prata desceu a correnteza através da garganta até perder-se de nossas vistas, 

e nunca mais enfeitou o doce rio... E a melodia acalentadora... morreu, pouco a pouco, ao longe,

 em murmúrios cada vez mais baixos. "

 

Afinal, Poe tornou~se famoso como escritor bizarro. Famoso, mas não próspero.

 Todo o mundo literário se erguera para reconhecer-lhe o talento,

 ao ganhar o primeiro prêmio com O Besouro de Ouro, um conto de cifras e segredos. 

 

Mas o prêmio rendeu-lhe apenas cem dólares e uma infinidade de aborrecimentos.

 

A história fizera surgir a mania dos "códigos". 

 

Grande número de admiradores mandava-lhe criptogramas e desafiava-o a que os resolvesse.

 "Perdi em tempo, que para mim é dinheiro, mais de mil dólares, decifrando mensagens secretas" 

- e isso com o único objetivo de demonstrar a uma grande assistência as suas qualidades analíticas.

 

 E a sua assistência se tornou ainda maior, quando surpreendeu o mundo com O Corvo

Não obstante, apesar de toda a sua fama, continuou tão pobre como antes:

 vendera O Corvo por dez dólares. 

E assim passou ele pelo mundo, triste, solitária, faminta celebridade trajada de preto, 

encontrando as pessoas com um sorriso cínico nos lábios, 

a "Sonhar sonhos que nenhum mortal jamais sonhara antes".

 

A despeito da tristeza e da fome, continuou criando suas estranhas visões e - admitamo-lo - 

plagiando livremente quando lhe diminuía o fogo da imaginação. 

Quando outros escritores lançavam mão dessa classe não permitida de empréstimo, 

ele chamava isso abertamente de roubo. Mas quando ele próprio o fazia... bem, ele o fazia, e isso era tudo! 

Vivia num mundo cujas leis, cujos costumes e cujas necessidades ficavam muito além 

da compreensão da média da inteligência humana. 

 

Seus criptogramas, suas mistificações, suas descrições pseudo-científicas de viagens em balão

 e as narrações de conversas com mortos e cadáveres ressuscitados tudo isso era parte e parcela.

 da fantasmagoria em que o seu espírito habitualmente vivia. 

 

Acaso a vida inteira não era uma mistificação, uma visão fantástica plagiada por algum 

Poeta Divino do pesadelo épico de um espírito diabólico? Por que, então, não deveria ele, 

poeta humano, plagiar as visões fantásticas de outros cérebros humanos?

 

Ele, portanto, não sentia arrependimento algum quando se afirmava que a sua narrativa marítima 

de Arthur Gordon Pym fora em grande parte copiada de uma descrição das Viagens, de Morell,

 e que o seu espantoso ensaio sôbre concologia (estudo das conchas)

 - assunto sobre o qual não possuía o menor conhecimento, era uma reprodução quase completa

 de um livro escrito pelo Capitão Thomas Brown.

 

Sempre "poseur", sempre pretendendo revelar um conhecimento que não possuía, 

sempre colorindo a sua impostura com a verossimilhança, vivia num mundo de fantasias subjetivas

 e leis por ele próprio fabricadas. 

 

Referia-se constantemente, em seus contos e artigos, a livros estrangeiros que, 

depois de investigações, se verificava jamais haver existido. 

 

Como outros escritores que sofrem o obstáculo de uma educação insuficiente, 

gostava de exibir a sua pseudo-erudicão por meio de "citações" 

de passagens tiradas de idiomas sobre os quais nada conhecia.

 

Mas não olhava as suas citações fictícias como imposturas. 

Era um artista. Não desejava fatos; desejava apenas efeitos.

 Era um pintor do grotesco e do arabesco. Não se interessava tanto pela verdade como pela beleza.

 "O sentido da beleza é um instinto imortal e profundo no espírito do homem

 

Evocar a beleza através da música das palavras - esse, e só esse, era o objetivo da sua arte.

Ele chamava de música "o mais arrebatador dos caprichos poéticos". 

 

Para criar esses caprichos, essas figuras musicais do grotesco e do arabesco,

 empregava todo o repertório literário de truques mágicos - "a novidade, as citações, a repetição,

 frases inesperadas, singularidades... sentenças e sentimentos de sons suaves" que ficavam 

"simplesmente além do alcance da análise". 

 

Afirmava que todos aqueles que persistem em "misturar o azeite da poesia e da verdade, 

" são "irremediavelmente loucos". 

 

Nenhuma obra de arte, afirmava ele, deveria jamais preconizar uma moral ou encerrar uma verdade.

 

O que procurava criar era, pois, uma realidade artística, antes que científica, verossimilhança,

 antes que verdade mera semelhança de verdade, antes que verdadeira verdade.

 

E aí estava, explicava ele, a justificação dos seus artifícios e mistificações, das suas "descobertas"

 pseudo-científicas e das suas citações fictícias. 

 

Era, tanto na poesia como na prosa, um escritor de ficção. 

 

Mas era também um criador, e assim, a sua ficção parecia, às vezes, mais verdadeira,

 mesmo, que a verdade.

 

Depois da morte da esposa, continuou a viver na sua casa de aluguel de Fordham. 

 

Sofreu séria enfermidade, durante esses "últimos anos solitários".

 

Depois, à medida que lentamente convalescia, em meio dos seus pequenos pássaros tropicais, 

das suas dálias e dos seus heliotrópios, seu espírito se envolveu nas nuvens do misticismo. 

Começou a discorrer sobre o universo e a planejar o panorama de uma filosofia comparada, 

diante da qual "a descoberta da gravitação de Newton seria um mero acidente". 

 

Escreveu o livro e exclamou: Eureka - Fiz a descoberta !

 

 Encarou esse livro como o maior dos seus trabalhos. 

 

Não era bastante ter-se colocado entre os mestres da poesia e da ficção; tinha-se tornado agora, 

acreditava ele, o principal filósofo do século. 

 

Mas os críticos pensavam de outra maneira. 

Encaravam o livro como a triste manifestação de uma pomposa obscuridade,

 a patética tentativa que trazia em si o germe mortal, em busca de uma alma imortal.

 

Poe, todavia, ainda não estava preparado para se confessar um fracassado.

 Agarrava-se ainda à esperança de lançar a sua própria revista e de "reabilitar-me, de um modo geral, 

no mundo literário". Realizou uma viagem de conferências pela Nova Inglaterra.

 

 "Aqueles olhos claros e tristes", escreveu um dos comentaristas das suas conferências,

 pareciam olhar-nos a todos de um plano superior...

Sorria, mas raramente ria ou dizia qualquer coisa que alegrasse os outros".

 

Numa conferência sobre poesia, realizada em Providence, conheceu Mrs. Whitman,

 urna poetisa por quem se sentiu profundamente atraído. Ficaram noivos, 

mas a conduta de Poe a afastou dele. Freqüentemente era encontrado caído pelas ruas 

- vitima do láudano ou do álcool. 

 

Era uma coisa lamentável quando embriagado. Cambaleando pelas sarjetas, os olhos turvos,

 as roupas transformadas em farrapos e sujas de lama,

perdia-se em "sublimes rapsódias sobre a evolução do universo",

 a falar como de uma plataforma imaginária para imensas assistências de sonho,

 compostas de "multidões de visitantes atentos".

 

Finalmente, quando, devido a bebida, caiu no descrédito público, Mrs. Whitman desfez o noivado.

 

Ele, porém, ainda alimentava o sonho do magazine que iria lançar. 

 

Em 1849 deixou Fordham, rumando para Richmond, para elaborar os planos da projeta publicação.

 Também agora sua esperança ruiu por terra, não devido a qualquer oposição externa,

 mas por falta de vontade própria. 

 

Seu espírito começara a atormentar-se com a suspeita de uma tremenda conspiração contra a sua vida. 

 

Com a navalha, raspava o bigode, disfarçando-se, assim, aos olhos dos seus perseguidores. 

 

Os amigos desconfiavam da sua sanidade, e achavam que alguém o devia vigiar. 

 

Sentiram grande alívio quando ele de novo passou a cortejar uma antiga namorada de infância, 

então viúva rica. 

Novamente, outro noivado foi anunciado. 

 

Poe liquidou seus negócios e partiu rumo ao Sul, para casar.

 

Mas não atingiu jamais o seu destino.

 Encontraram-no em Baltimore - numa das seções eleitorais do quarto distrito - fora de si, 

sem as malas de viagem, e sem o dinheiro que levava, que desaparecera.

 

 Acreditou-se que, sob a influência do álcool, tivesse caído nas mãos de um bando de cabos eleitorais velhacos,

 que o teriam narcotizado e conservado prisioneiro até o dia das eleições,

 fazendo-o depois, ainda entorpecido, ir de um distrito a outro, para votar sob vários nomes.

 

Levaram-no para o hospital.

 

 O rosto estava banhado de suor. 

 

Falou, em delírio, durante horas. Depois seu espírito adquiriu certa lucidez.

 

 Pouco antes de morrer, balbuciou algumas frases coerentes.

 

O  God! ... Is all we see or seem

 But a dream within a dream?

( Ó Deus!... Tudo o que vemos ou julgamos ver,

Não passa de um sonho dentro de um sonho? )

 

E assim termina a história de um homem de grandes idéias, um grande literato

 um grande Poeta que jamais morrerá !!!

 
 

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