EDGAR ALLAN POE

 

A SUA POESIA

1809 - 1849

A vida de Allan Poe começou em Boston, 

a mais respeitável das cidades americanas.  

 

Um homem nascido lá não poderia ser destinado ao mesmo destino de um qualquer, se tivesse tido uma meia oportunidade...Mas Poe teve menos que a metade.

 

Nascera de um casal de atores ambulante e perdera a ambos em criança. 

 

Em compensação de ter perdido os pais, o destino presenteou-o com um casal de pais adotivos. 

 

Os ricos e aristocráticos Alíans, da Virgínia, que adotaram Edgar Poe, deram-lhe o nome e o afeto,

 mas nenhuma compreensão. 

 

Não poderiam jamais compreender esse pequeno boêmio errante que lhes veio de um mundo estranho. 

 

Procuraram da melhor maneira possível prepará-lo para o seu próprio mundo de fechado

 esnobismo e cultura convencional, e fracassaram.

 

Isso não estava no sangue de Poe.

Como primeiro passo para fazer dele um gentleman do Sul, 

mandaram-no para um internato inglês.

 

Voltou para os Estados-Unidos com polimento exterior, 

maneiras correlata e uma etiqueta de sala de recepções. 

 

Mas contraíra também os vícios que cercam o aristocrata inglês, 

paixão pelas cartas e pelo vinho. E ele não possuía nem a bolsa nem a constituição física necessária para entregar-se prodigamente a esses vícios.

Acrescente-se a isso uma imaginação ardente, mas mórbida,

  um coração hipersensível, uma vontade fraca e uma língua impetuosa, 

e teremos um jovem poeta dificilmente destinado 

a passar ileso pelas batalhas da vida.  

 

Túmulo de Poe

 

E, com efeito, suas dificuldades começaram cedo.

 Logo após haver entrado para a Universidade de Virgínia,

 enfrentou o pai adotivo com uma dívida de jogo que enfureceu o velho gentleman, Poe foi tirado do colégio e posto a trabalhar na casa comercial.

 

Sua carreira entre os usurários foi tão breve quanto desagradável.

 

 Fugiu da mesa de trabalho e alistou-se no exército. Deu o nome de Edgar A. Perry. Em dois anos, chegou ao posto de primeiro sargento.

 Depois desertou.

Sua casa de aluguel de Fordham

 O pai descobriu-lhe a pista.

 

Estava amargamente desapontado com "aquele filho inútil de artistas inúteis". 

 

Resolveu, contudo, dar-lhe outra oportunidade. 

 

Conseguiu-lhe, no Congresso, uma recomendação para West Point.

 

Poe entrou para a academia militar aos vinte anos.

 Mas logo se verificou que ele não dava para a vida de oficial de carreira.

 

 Não podia tolerar disciplina alguma. Tornara-se insubordinado.

 Revelara profundo desprezo pelos seus deveres.

 

Ninguém sabia o que pensar dele. Mr. Allan lançava as mãos para o alto, desesperado.

 

Cometera um grave erro ao tomar sob sua proteção uma tão estranha criatura.

 

Dentre todas as criancinhas adoráveis que poderia ter adotado,

O caráter de Poe ficava, com efeito, além da compreensão de Mr. Allan, que, 

apesar de toda a sua riqueza e aristocracia, era um homem de espírito simples, 

e jamais sonhou que o seu filho adotivo fosse dotado de gênio poético.

 

Nenhum dos companheiros de Poe também jamais suspeitou da atividade febril que lhe dominava o cérebro. 

Apesar do seu agradável convívio, Poe não havia ainda aberto o coração para ninguém. 

 

Dizia-se, mesmo, que lhe faltava o poder de fazer amigos íntimos.

 

 Havia, uma estranha reserva na sua pessoa, observavam os outros. 

Mesmo na universidade, onde ele tantas vezes agira como cabeça de grupos ruidosos de estudantes,

 "ninguém o conhecia bem". Qual a razão desse retraimento?

  Perguntavam os companheiros uns aos outros.

 

Alguns sugeriam que talvez fosse devido à solidão que lhe era peculiar. 

Vivia fora do seu meio, como peixe fora dágua ( Era um ator mal escolhido e infeliz, 

um filho da sarjeta compelido a assumir o papel de aristocrata.

 

De certo modo, eles tinham razão. ele não encontrava calor naquele meio estranho,

 nenhuma simpatia afim, nenhum amor familiar. 

 

Certa ocasião, com efeito, quando era um simples menino de escola,

 conheceu por pouco tempo a ternura da compreensão de uma mulher mais velha.

 Ela era mãe de um companheiro de escola.

 

 E dissera-lhe palavras de afeto como ele jamais ouvira antes! 

Mas depois ela morreu, e as poucas palavras de amor que conhecera na infância

 ficaram-lhe apenas como um eco e uma recordação.

 

Viveu sozinho com as suas recordações e os seus sonhos.

 Passando essas recordações e esses sonhos pelo filtro da imaginação mórbida, 

transformou-os numa poesia como jamais fora ouvida na América.

 

Quando foi expulso de West Point, submeteu esses poemas-sonhos à apreciação dos jornais de Baltimore.

 Os redatores desses jornais olharam ironicamente seu autor. Escrevera pura tolice, pensavam eles.

 Mas que tolice estupenda era aquela!

 

Sem níquel e desavindo com o mundo, Poe continuou a sua bizarra poesia. Escreveu Tamerlão,

 a história de um homem que conquistou o mundo para a bem-amada e ao voltar para depô-lo aos seus pés,

 soube que, na sua ausência, ela morrera de solidão; Al Aaraaf, o estranho conto do outro mundo;

 poemas e narrações que não eram, absolutamente, 

contos, mas fantásticas visões adaptadas a uma nova musicalidade.

 

Naturalmente ninguém podia compreender esses poemas. 

 

Não obstante, todos aqueles que os liam podiam ouvir o eco surpreendente e fantástico de uma nova música.

 

Publicou um magro volume desses versos, escritos durante os dias de estudante, entre os cadetes.

 A imprensa criticou o livro favoravelmente. 

Era um bom começo.

 O autor poderia compor senão um magnífico, pelo menos um belo poema, uma vez senhor do assunto.

"Estou certo de que até agora ainda não escrevi nenhum poema belo ou magnífico.

 Mas eu o farei, juro-o, se eles apenas me derem tempo para isso!"  

Entrementes, voltou a atenção para a prosa. Decidira seguir a carreira literária, 

e percebera que para conquistar fama e fortuna cumpria enveredar pelos caminhos íngremes da ficção. 

 

Apresentara uma narração pavorosa e arrepiante - a história fantástica de um naufrágio - 

num concurso literário, e conseguiu o primeiro lugar. 

 

Quando os editores do Baltimore Saturday Visitor manifestaram o desejo de jantar com o homem 

a quem haviam concedido o prêmio em dinheiro, Poe mandou-lhes a seguinte resposta:

 "Vosso convite para jantar me comoveu vivamente. Não posso ir por razões da mais humilhante natureza.

 

 Não tenho um terno decente de roupa para vestir".

 

O pai tinha rompido relações com ele. Um dia, Poe soube que Mr. Allan estava seriamente enfermo.

 Correu para junto de seu leito. Mr. Allan, porém, reunindo as últimas forças que lhe restavam,

 ergueu-se do leito, tomou da bengala e brandiu-a ameaçadora no ar,

 exigindo que Poe saísse imediatamente da casa. Pouco tempo depois, Allan morreu. 

Segundo os termos do testamento, não ficou para Poe um único sentil.

 

No entanto, parecia estar no caminho do sucesso. 

Os literatos da alta sociedade de Baltimore começavam a falar a seu respeito. 

Corriam boatos de que ele estava prestes a publicar um volume de narrações bizarras.

 "O rapazinho possui grande imaginação, embora seja um tanto dado ao terrível".

 

Estavam dispostos a auxiliá-lo a fazer carreira. Graças às próprias recomendações, 

convidaram-no para o cargo de redator do Sonthern Iiterary Messenger, de Richmond, Virgínia. 

 

Ele aceitou o oferecimento. Encorajado pela perspectiva de uma renda fixa - dez dólares por semana -

 Poe achou que podia agora anunciar seu casamento, que se havia realizado em particular algum tempo antes. 

 

A despeito do empenho dos pais da jovem, para adiar o enlace até que esta tivesse mais idade,

 casara com a prima, Virgínia Clemm, que contava treze anos. 

 

Haviam enfrentado o convencionalismo dos que os cercavam. 

Opiniões convencionais, atos convencionais, essas coisas todas não eram mais 

do que sombras passageiras no mundo pobre de imaginação em que a maior parte dos homens viviam.

 Que interesse tinha elas para Poe, que vivia na confortadora solidez do seu próprio mundo fantástico?

 

Era um heterodoxo convicto. Não se lhe podia sondar o Intimo.

 Mal se viu mais ou menos assentado na vida, com uma reputação que aumentava dia a dia, 

e um futuro à frente, pôs-se a beber até perder essa situação de segurança. 

 

Possuía estranho senso de humor, inútil e zombeteiro. 

Ninguém achava graça nisso. Mr. White, ao despedi-lo do cargo de redator, 

escreveu-lhe uma carta bastante cordial. 

"Não posso dirigir-me ao senhor na linguagem que a ocasião e os meus sentimentos exigem...

 Quando o senhor novamente percorrer as ruas, tenho receio de que... beba de novo até perder a razão.

 A menos que o senhor recorra ao seu Criador em busca de auxilio, não estará seguro...

 Se o senhor se contentasse em alojar-se em minha casa, ou em casa de qualquer outra família particular,

 onde não se usa álcool, creio que lhe restaria alguma esperança. 

Mas se for para uma taberna ou para qualquer outro lugar onde ele é usado à mesa, 

o senhor estará perdido".

 

Deixou Baltimore em busca da fortuna em Filadélfia.

 Foi em busca da fortuna e encontrou novos infortúnios, pois, aonde quer que fosse, 

carregava consigo a sua sensibilidade e a sua fraqueza.

 

Essa fraqueza, porém, era resultado direto da sua sensibilidade, insistia ele em afirmar.

 Não era que bebesse excessivamente, explicava, mas sim que não podia beber absolutamente.

 Tanto física como mentalmente era diferente das outras criaturas. 

Tinha os nervos tão tensos que o menor estímulo o conduzia à maior excitabilidade. "Juro perante Deus,

 sob palavra solene de cavalheiro, que sou sóbrio, mesmo severamente sóbrio". 

 

Se tomava um simples copo de cerveja ou de vinho fraco, afirmava ele, 

isso quase sempre acabava em severa enfermidade. O que para ele constituía excesso,

 era a quantidade normal que qualquer homem bebia.

 

Assim argumentava ele diante do mundo. 

Não podia beber muito, mas era forçado a beber um pouco. 

 

Tomava por testemunhas "todos os médicos do mundo", de que necessitava de alguma coisa mais forte 

do que a água para traduzir suas fulgurantes fantasias em palavras vivas

 

Mas teve poucas oportunidades para entregar-se as suas fantasias.

 De vez em quando, os editores de jornais ofereciam-lhe um lugar de comentarista de livros - 

trabalho que ele cordialmente detestava. "Eles querem fazer de mim o astuto adulador do momento,

 e que eu me curve, lisonjeie e espalhe a glória de talentos de terceira classe numa cometa barata.

 Eu seria, então, festejado em vida; e, talvez, exaltado depois de morto". 

Mas ele não podia estar permanentemente ligado a publicação alguma que não fosse sua. 

Considerando ser o texto muito longo o que irá fazer demorar a abertura da página, 

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CONTINUAÇÃO

 

 

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