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O
pai descobriu-lhe a pista.
Estava amargamente desapontado
com "aquele filho inútil de artistas inúteis".
Resolveu, contudo, dar-lhe outra oportunidade.
Conseguiu-lhe, no Congresso, uma recomendação para West
Point.
Poe
entrou para a academia militar aos vinte anos.
Mas logo
se verificou que ele não dava para a vida de oficial de
carreira.
Não podia tolerar disciplina alguma.
Tornara-se insubordinado.
Revelara profundo desprezo
pelos seus deveres.
Ninguém
sabia o que pensar dele. Mr. Allan lançava as mãos para o
alto, desesperado.
Cometera um grave erro ao tomar sob sua
proteção uma tão estranha criatura.
Dentre todas as
criancinhas adoráveis que poderia ter adotado,
O
caráter de Poe ficava, com efeito, além da compreensão
de Mr. Allan, que,
apesar de toda a sua riqueza e aristocracia,
era um homem de espírito simples,
e jamais sonhou que o seu
filho adotivo fosse dotado de gênio poético.
Nenhum
dos companheiros de Poe também jamais suspeitou da atividade
febril que lhe dominava o cérebro.
Apesar do seu agradável
convívio, Poe não havia ainda aberto o coração para ninguém.
Dizia-se, mesmo, que lhe faltava o poder de fazer amigos íntimos.
Havia, uma estranha reserva na sua pessoa, observavam os
outros.
Mesmo na universidade,
onde
ele tantas vezes agira como cabeça de grupos ruidosos de
estudantes,
"ninguém o conhecia bem". Qual a razão desse
retraimento?
Perguntavam os companheiros uns aos outros.
Alguns
sugeriam que talvez fosse devido à solidão que lhe era
peculiar.
Vivia fora do seu meio, como peixe fora dágua ( Era
um ator mal escolhido e infeliz,
um filho da sarjeta compelido
a assumir o papel de aristocrata.
De
certo modo, eles tinham razão. ele não encontrava calor
naquele meio estranho,
nenhuma simpatia afim, nenhum amor
familiar.
Certa
ocasião, com efeito, quando era um simples menino de escola,
conheceu por pouco tempo a ternura da compreensão de uma
mulher mais velha.
Ela era mãe de um companheiro de escola.
E
dissera-lhe palavras de afeto como ele jamais ouvira antes!
Mas
depois ela morreu, e as poucas palavras de amor que conhecera
na infância
ficaram-lhe apenas como um eco e uma recordação.
Viveu
sozinho com as suas recordações e os seus sonhos.
Passando
essas recordações e esses sonhos pelo filtro da imaginação
mórbida,
transformou-os numa poesia como jamais fora ouvida na
América.
Quando
foi expulso de West Point, submeteu esses poemas-sonhos à
apreciação dos jornais de Baltimore.
Os redatores desses
jornais olharam ironicamente seu autor. Escrevera pura tolice,
pensavam eles.
Mas que tolice estupenda era aquela!
Sem
níquel e desavindo com o mundo, Poe continuou a sua bizarra
poesia. Escreveu Tamerlão,
a história
de um homem que conquistou o mundo para a bem-amada e ao voltar
para depô-lo aos seus pés,
soube que, na sua ausência, ela
morrera de solidão; Al Aaraaf, o
estranho conto do outro mundo;
poemas e narrações que não
eram, absolutamente,
contos, mas fantásticas visões adaptadas
a uma nova musicalidade.
Naturalmente
ninguém podia compreender esses poemas.
Não
obstante, todos aqueles que os liam podiam ouvir o eco
surpreendente e fantástico de uma nova música.
Publicou
um magro volume desses versos, escritos durante os dias de
estudante, entre os cadetes.
A imprensa criticou o livro favoravelmente.
Era um bom começo.
O autor poderia compor senão um magnífico,
pelo menos um belo poema, uma vez senhor do assunto.
"Estou certo de que até agora ainda não escrevi nenhum
poema belo ou magnífico.
Mas eu o farei, juro-o, se eles
apenas me derem tempo para isso!"
Entrementes,
voltou a atenção para a prosa. Decidira seguir a carreira
literária,
e percebera que para conquistar fama e fortuna
cumpria enveredar pelos caminhos íngremes da ficção.
Apresentara
uma narração pavorosa e arrepiante - a história fantástica
de um naufrágio -
num concurso literário, e conseguiu o
primeiro lugar.
Quando
os editores do Baltimore Saturday Visitor manifestaram o desejo
de jantar com o homem
a quem haviam concedido o prêmio em
dinheiro, Poe mandou-lhes a seguinte resposta:
"Vosso
convite para jantar me comoveu vivamente. Não posso ir por razões
da mais humilhante natureza.
Não tenho um terno decente de
roupa para vestir".
O
pai tinha rompido relações com ele. Um dia, Poe soube que Mr.
Allan estava seriamente enfermo.
Correu para junto de seu
leito. Mr. Allan, porém, reunindo as últimas forças que lhe
restavam,
ergueu-se do leito, tomou da bengala e brandiu-a ameaçadora
no ar,
exigindo que Poe saísse imediatamente da casa. Pouco
tempo depois, Allan morreu.
Segundo os termos do testamento, não
ficou para Poe um único sentil.
No
entanto, parecia estar no caminho do sucesso.
Os literatos da
alta sociedade de Baltimore começavam a falar a seu respeito.
Corriam boatos de que ele estava prestes a publicar um volume
de narrações bizarras.
"O rapazinho possui grande
imaginação, embora seja um tanto dado ao terrível".
Estavam
dispostos a auxiliá-lo a fazer carreira. Graças às próprias
recomendações,
convidaram-no para o cargo de redator do
Sonthern Iiterary Messenger, de Richmond, Virgínia.
Ele
aceitou o oferecimento. Encorajado pela perspectiva de uma
renda fixa - dez dólares por semana -
Poe achou que podia
agora anunciar seu casamento, que se havia realizado em
particular algum tempo antes.
A
despeito do empenho dos pais da jovem, para adiar o enlace até
que esta tivesse mais idade,
casara com a prima, Virgínia
Clemm, que contava treze anos.
Haviam
enfrentado o convencionalismo dos que os cercavam.
Opiniões
convencionais, atos convencionais, essas coisas todas não eram
mais
do que sombras passageiras no mundo pobre de imaginação
em que a maior parte dos homens viviam.
Que interesse tinha
elas para Poe, que vivia na confortadora solidez do seu próprio
mundo fantástico?
Era
um heterodoxo convicto. Não se lhe podia sondar o Intimo.
Mal
se viu mais ou menos assentado na vida, com uma reputação que
aumentava dia a dia,
e um futuro à frente, pôs-se a beber até
perder essa situação de segurança.
Possuía
estranho senso de humor, inútil e zombeteiro.
Ninguém achava
graça nisso. Mr. White, ao despedi-lo do cargo de redator,
escreveu-lhe uma carta bastante cordial.
"Não posso
dirigir-me ao senhor na linguagem que a ocasião e os meus
sentimentos exigem...
Quando o senhor novamente percorrer as
ruas, tenho receio de que... beba de novo até perder a razão.
A menos que o senhor recorra ao seu Criador em busca de
auxilio, não estará seguro...
Se o senhor se contentasse em
alojar-se em minha casa, ou em casa de qualquer outra família
particular,
onde não se usa álcool, creio que lhe restaria
alguma esperança.
Mas se for para uma taberna ou para qualquer
outro lugar onde ele é usado à mesa,
o senhor estará
perdido".
Deixou
Baltimore em busca da fortuna em Filadélfia.
Foi em busca da
fortuna e encontrou novos infortúnios, pois, aonde quer que fosse,
carregava consigo a sua sensibilidade e a sua fraqueza.
Essa
fraqueza, porém, era resultado direto da sua sensibilidade,
insistia ele em afirmar.
Não era que bebesse excessivamente,
explicava, mas sim que não podia beber absolutamente.
Tanto física
como mentalmente era diferente das outras criaturas.
Tinha os
nervos tão tensos que o menor estímulo o conduzia à maior
excitabilidade. "Juro perante Deus,
sob palavra solene de
cavalheiro, que sou sóbrio, mesmo severamente sóbrio".
Se
tomava um simples copo de cerveja ou de vinho fraco, afirmava
ele,
isso
quase sempre acabava em severa enfermidade. O que para ele
constituía excesso,
era a quantidade normal que qualquer homem
bebia.
Assim
argumentava ele diante do mundo.
Não podia beber muito, mas
era forçado a beber um pouco.
Tomava
por testemunhas "todos os médicos do mundo", de que
necessitava de alguma coisa mais forte
do que a água para
traduzir suas fulgurantes fantasias em palavras vivas
Mas
teve poucas oportunidades para entregar-se as suas fantasias.
De vez em quando, os editores de jornais ofereciam-lhe um lugar
de comentarista de livros -
trabalho que ele cordialmente
detestava. "Eles querem fazer de mim o
astuto
adulador do momento,
e que eu me curve, lisonjeie e espalhe a
glória de talentos de terceira classe numa cometa barata.
Eu
seria, então, festejado em vida; e, talvez, exaltado depois de
morto".
Mas ele não podia estar permanentemente ligado a
publicação alguma que não fosse sua. |