|
"O
caminho do morro"
Guiava
à casa do morro, em voltas, o caminho,
até
lhe ir esbarrar com as orlas do terreiro;
dava-lhe
o doce ingá, rachado ao sol, o cheiro.
e
um rumor de maré o cafezal vizinho.
Quanta
vez o subi, buscando a um guaxe o ninho,
ou,
saltando, o desci com o regato ligeiro,
para
voar num balanço, embaixo, o dia inteiro,
e
ver girar, zonzando, as asas de um moinho!
De
setembro até março, uma colcha de flores
tapetava-o.
Reluz-lhe em poças de água o céu;
das
folhas sobre o saibro os orvalhos escorrem.
Mas
morreram na casa, em cima, os moradores,
morreu,
caindo, a casa, o moinho morreu,
o
caminho morreu... Até os caminhos morrem! |
"Vaso
Chinês"
Estranho
mimo aquele vaso! Vi-o,
casualmente,
uma vez, de um perfumado
contador
sobre o mármor luzidio,
entre
um leque e o começo de um bordado.
Fino
artista chinês, enamorado,
nele
pusera o coração doentio,
em
rubras flores de um sutil lavrado,
na
tinta ardente, de um calor sombrio.
Mas,
talvez por contraste à desventura,
quem
o sabe?.., de um velho mandarim
também
lá estava a singular figura;
que
arte em pintá-la! a gente acaso vendo-a,
sentia
um não sei quê com aquele chim
de
olhos cortados à feição de amêndoa. |
|
"Beijos
do céu"
Sonhei-te
assim, ó minha amante, um dia:
-
Vi-te no céu; e, enamoradamente,
de
beijos, a falange resplendente
dos
serafins, teu corpo inteiro ungia...
Santos
e anjos beijavam-te... Eu bem via,
beijavam
todos o teu lábio ardente;
e,
beijando-te, o próprio Onipotente,
o
próprio Deus nos braços te cingia!
Nisto,
o ciúme - fera que eu não domo -
despertou-me
do sonho; repentino
vi-te
a dormir tão plácida a meu lado...
E
beijei-te também, beijei-te.., e, ai! como
achei
doce o teu lábio purpurino,
tantas
vezes assim no céu beijado! |
"Choro
de vagas"
Não
é de águas apenas e de ventos,
no
rude som, formada a voz do oceano:
em
seu clamor ouço um clamor humano;
em
seu lamento, todos os lamentos.
São
de náufragos mil estes acentos,
estes
gemidos, este aiar insano.
Agarrados
a um mastro ou tábua ou pano,
vejo-os
varridos de tufões violentos.
Vejo-os,
na escuridão da noite, aflitos,
bracejando
ou já mortos e de bruços,
largados
das marés, em ermas plagas.
O!
que são deles estes surdos gritos!
Este
rumor de preces e soluços
é
o choro de saudade destas vagas! |
|
"Floresta
convulsa"
Floresta
de altas árvores, escuta:
Em
minha dor vim conversar contigo;
como
no seio do melhor amigo,
descanso
aqui de tormentosa luta.
Troncos da solidão intata e bruta,
sabei...
Ah! que, porém, como um castigo
vos
estorceis, e o som do que vos digo
vai
morrer longe em solitária gruta.
Que
tendes, vegetais?. . . Remorso?. . . Crime?.
Açoita-vos
o vento, como um bando
de
fúrias e anjos maus, que nós não vemos?
Mas
explicai-vos ou primeiro ouvi-me,
que
a um tempo assim braceando, assim gritando,
assim
chorando não nos entendemos... |
"Crescente
de Agosto"
Alteia-se
no azul aos poucos o crescente,
o
ar embalsama, os cirros leva, o escuro
afasta;
vasto,
de extremo a extremo, enche a alameda vasta
e
emborca a urna de luz nas águas da corrente.
Na
escumilha da teia, onde a aranha indolente
dorme,
feita de orvalho, uma pérola engasta.
Faz
aos lírios mais branca a flor cetínea e
casta,
mais
brancos os jasmins e a murta redolente.
Faz
chorar um violão lá não sei onde... (A
ouvi-lo,
na
calada da noite um não-sei-quê me invade).
Faz
que haja em tudo um como estranho espasmo e
enlevo;
faz
as coisas rezar, ao seu clarão tranqüilo,
faz
nascer dentro em mim uma grande saudade,
faz
nascer da saudade estes versos que escrevo. |
|