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 A POESIA DE ALBERTO DE OLIVEIRA

"O caminho do morro"

 

  Guiava à casa do morro, em voltas, o caminho,

 até lhe ir esbarrar com as orlas do terreiro;

 dava-lhe o doce ingá, rachado ao sol, o cheiro.

 e um rumor de maré o cafezal vizinho.

 

Quanta vez o subi, buscando a um guaxe o ninho,

 ou, saltando, o desci com o regato ligeiro, 

para voar num balanço, embaixo, o dia inteiro, 

e ver girar, zonzando, as asas de um moinho!

 

De setembro até março, uma colcha de flores 

tapetava-o. Reluz-lhe em poças de água o céu; 

das folhas sobre o saibro os orvalhos escorrem.

 

Mas morreram na casa, em cima, os moradores,

 morreu, caindo, a casa, o moinho morreu,

o caminho morreu... Até os caminhos morrem!

"Vaso Chinês"

 

  Estranho mimo aquele vaso! Vi-o, 

casualmente, uma vez, de um perfumado 

contador sobre o mármor luzidio,

 entre um leque e o começo de um bordado.

 

  Fino artista chinês, enamorado, 

nele pusera o coração doentio, 

em rubras flores de um sutil lavrado,

 na tinta ardente, de um calor sombrio.

 

  Mas, talvez por contraste à desventura, 

quem o sabe?.., de um velho mandarim

 também lá estava a singular figura;

 

  que arte em pintá-la! a gente acaso vendo-a,

 sentia um não sei quê com aquele chim

 de olhos cortados à feição de amêndoa.

"Beijos do céu"

 

Sonhei-te assim, ó minha amante, um dia:

- Vi-te no céu; e, enamoradamente,

 de beijos, a falange resplendente

 dos serafins, teu corpo inteiro ungia...

 

Santos e anjos beijavam-te... Eu bem via, 

beijavam todos o teu lábio ardente; 

e, beijando-te, o próprio Onipotente, 

o próprio Deus nos braços te cingia!

 

Nisto, o ciúme - fera que eu não domo -

despertou-me do sonho; repentino 

vi-te a dormir tão plácida a meu lado...

 

E beijei-te também, beijei-te.., e, ai! como 

achei doce o teu lábio purpurino,

 tantas vezes assim no céu beijado!

"Choro de vagas

 

Não é de águas apenas e de ventos,

 no rude som, formada a voz do oceano:

em seu clamor ouço um clamor humano; 

em seu lamento, todos os lamentos.

 

São de náufragos mil estes acentos, 

estes gemidos, este aiar insano. 

Agarrados a um mastro ou tábua ou pano,

 vejo-os varridos de tufões violentos.

 

Vejo-os, na escuridão da noite, aflitos,

 bracejando ou já mortos e de bruços, 

largados das marés, em ermas plagas.

 

O! que são deles estes surdos gritos!

 Este rumor de preces e soluços

 é o choro de saudade destas vagas!

"Floresta convulsa"

 

Floresta de altas árvores, escuta:

Em minha dor vim conversar contigo;

 como no seio do melhor amigo,

 descanso aqui de tormentosa luta.

 

  Troncos da solidão intata e bruta,

 sabei... Ah! que, porém, como um castigo

 vos estorceis, e o som do que vos digo

 vai morrer longe em solitária gruta.

 

Que tendes, vegetais?. . . Remorso?. . . Crime?.

Açoita-vos o vento, como um bando 

de fúrias e anjos maus, que nós não vemos?

 

Mas explicai-vos ou primeiro ouvi-me, 

que a um tempo assim braceando, assim gritando,

assim chorando não nos entendemos...

"Crescente de Agosto"

 

Alteia-se no azul aos poucos o crescente,

o ar embalsama, os cirros leva, o escuro afasta;

vasto, de extremo a extremo, enche a alameda vasta

e emborca a urna de luz nas águas da corrente.

 

Na escumilha da teia, onde a aranha indolente

 dorme, feita de orvalho, uma pérola engasta.

 Faz aos lírios mais branca a flor cetínea e casta,

 mais brancos os jasmins e a murta redolente.

 

Faz chorar um violão lá não sei onde... (A ouvi-lo, 

na calada da noite um não-sei-quê me invade). 

Faz que haja em tudo um como estranho espasmo e enlevo;

 

  faz as coisas rezar, ao seu clarão tranqüilo,

 faz nascer dentro em mim uma grande saudade,

faz nascer da saudade estes versos que escrevo.

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